Quem sou eu?

Escritos de uma "Einstein" é um blog de uma jovem que cultiva a cada dia o dom de escrever. Cujos textos esboçam suas análises, críticas e por que não, devaneios. Afinal, de louco todo mundo tem um pouco! ;)

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Sonetos: WILLIAM SHAKESPEARE


Simplesmente admiro este grande autor, e tenho por ele uma verdadeira estima e apreciação de seus belos textos. Desde já, venho a publicar sonetos e frases deste que é conhecido como o maior dramaturgo de todos os tempos.
Uma coletânea feita pela Lacerda Editores, contendo 42 sonetos, traduzidos de forma mais fiel possível a língua original dos textos.

                                01 - Dos seres ímpares ansiamos prole                  
Para que a flor do Belo não se extinga,
E se a rosa madura o Tempo colhe,
Fresco botão sua memória vinga.
Mas tu, que só com os olhos teus
                                        [contrais,
Nutres o ardor com as próprias energias
Causando fome onde a abundância jaz,
Cruel rival, que o próprio ser cruciais.
Tu que do mundo és hoje o galardão, 
Arauto da festiva Natureza,
Matas o teu prazer inda o botão
     Piedade, senão ides, tu e o fundo
     Dão chão, comer o que é devido ao 
                                         [mundo.


02 - Quando no assédio de quarentena invernos
Se cavarem as linhas de teu rosto,
Da juventude os teus galões supernos
Podres andrajos se tiverem posto

Se então te perguntarem pelo fausto
De teus dias de glória o de beleza,
Dizer que  tudo jaz no olhar exausto, 
Opróbrio fora, encômio sem grandeza.
Mais mérito terias nessa usança
Se pudesses dizer: "Meu filho há-de
Saldar-me a dívida, exculpar-me a idade",
Provando que a beleza é tua herança.
Fora tornar em novos as coisas velhas
E ver o sangue quente quanto
[engelhas.


03 - Quando a hora dobra em triste e tardo
                                                           toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que

A prata a preta têmpora assedia;
Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir no carro, a barba hirsuta e branca;
Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça nova.
     Contra a foice do Tempo é vão
                                                [combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te
                                                [abate.                                                                                                   
       

04 -  Dos astros não retiro entendimento
Embora eu tenha cá de astronomia,
Mas não para prever a sorte, o intento

Das estações, ou fome, epidemia;
Nem sei dizer o que será do instante,
Prever a alguém quer chuva, ou vento, ou
[raio;
Se tudo há-de sorrir ao governante
Segundo as predições que aos céus
[extraio.
De teus olhos provêm meus atributos
E, astros constantes, leio ali tal arte:
"Que a verdade e a beleza darão frutos
Se em ti deixas de tanto reservar-te";
   Ou um vaticínio sobre ti revelo:
"Teu fim põe termo ao verdadeiro e ao 
[belo".


05 - Quando observo que tudo quanto cresce              
Desfruta a perfeição de um só momento,
                                                  Que neste palco imenso se obedece                                                           A secreta influição de firmamento;
Quando percebo que ao homem, como à
                                                                   [planta,
Esmaga o mesmo céu que lhe deu
                                                                   [glória,
Que se ergue em seiva e,no ápice,
                                                                [aquebranta
E um dia enfim se apaga da memória:
Esse conceito da inconstante sina
Mais jovem faz-te ao melhor agora,
Quando o tempo se alia com a Ruína
Para tornar em noite a tua aurora.
      E crua guerra contra o Tempo enfrento,
      Pois tudo que te toma eu te acrescente.

06 - Um dia crer nos versos meus quem há -de
Se eu neles derramar teus dons mais
[puros?
No entanto sabe o céu que eles são muros
Que a tua vida ocultam por metade.
Dissera o que de teu olhar emana
Teus dons em nova  métrica medira,
Que  acharia o porvir então: "Mentira !
Tais tratos não retratam face humana"
Que mofem pois deste papel fanado
Qual de velhos loquazes, e a teu ente
Chamem de pura exaltação da mente
E a meu verso exageros do passado.
  Mas se chegar a tua estirpe a tanto,
Em dobro hás - de  viver: nela e em meu
[canto.
07 - Devo igualar-te a um dia de verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival um breve instante.
Muitas vezes a luz do céu calcina
Mas o áureo tom também perde a clareza
De seu belo a beleza enfim declina,

,
Ao léu ou pelas leis da Natureza.
Só teu verão eterno não se acaba
Nem a posse de tua formosura;
De impor -te a sombra a Morte não se gaba
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo
                                                                 [dura.
      Enquanto houver viventes nesta lida,
      Há - de viver meu verso e te dar vida.


      08 - Tempo voraz, ao leão cegas as garras
               E à terra fazes devorar seus genes;
                  Ao tigre as presas hórridas desgarras
                      E ardes no próprio sangre a eterna fênix.
                    Pelo caminho vão teus pés ligeiros
                    Alegres, tristes estações deixando;
                   Impões-te ao mundo e aos gozos
                                                  [passageiros,
                    Mas proibi-te um crime mais nefando
                    De meu amor não vinques o semblante
                     Nem nele imprimas o teu traço duro.
                    Oh! permite que intacto siga avante
                   Como padrão do belo futuro.
                       Ou antes, velho Tempo, sê perverso:
                       Pois jovem sempre há-de o manter
                                                         [meu verso.


09 - O espelho não me prova que envelheço
Enquanto andares par com a mocidade;
Mas se de rugas vir teu rosto impresso,
Já sei que a Morte a minha vida invade.
Pois toda essa beleza que te veste
Vem de meu coração, que é teu espelho;
O meu vive em teu peito, e o teu me deste:
Por isso como posso ser mais velho?
Portanto, amor, tenhas de ti cuidado
Que eu, não por mim, antes por ti, terei;
Levar teu coração, tão desvelado
Qual ama guarda o doce infante, eu hei.
       E nem penses em volta, morte o meu,
       Pois para sempre é que meu deste o teu.



10 - Como imperfeito ator que em meio à cena
O seu papel na indecisão recita,
Ou como o ser violento em fúria plena
A que o excesso de forças debilita;
Também eu, sem confiança em mim, me
 [esqueço 
No amor de os ritos próprios recitar,
E na força com que amo me enfraqueço
Rendido ao peso do poder de amar.
Oh! sejam pois meus livros a eloquência,
Ángures mudos de expressivo peito,
Que amor implorem, pecam recompensa,
Mais do que a voz que muito mais tem
[feito.
Saibas ler o que o mudo amor escreve,
Que o fino amor ouvir com os olhos
[ deve.


11 - Lanço-me ao leito, exausto da fadiga,
Repousa o corpo ao fim da caminhada,
Mais eis que a outra jornada a mente
                                                            [obriga
Quando é do corpo a obrigação passada.
A ti meu pensamento - na distância -
Em santa romaria então me leva,
E fico, as frouxas pálpebras em ânsia,
Olhando, como os cegos vêem na treva.
E a vista de minh'alma ali desvenda
Aos olhos sem visão tua figura,
Que igual a jóia erguida em noite
                                                      [horrenda,
Renova a velha face à noite escura.
       Ai! que de dia o corpo, à noite a alma,
       Por tua e minha culpa não têm calma.


12 - Como hei de restaurar-me na bonança
Se órfão da graça do repouso vi-me,
Pois a opressão do dia a noite alcança,
Da noite o dia, e dia e noite oprime;
Que ambos, embora em natureza opostas,
Deram-se as mãos para me dar tortura:
Um dá-me a dura pena, outro desgostos,
Que este penar longe de ti mais dura.
Digo que és luz para agradar ao dia,
E, se há nuvens, que pode removê-las;
Lauvo também a noite a tez sombria:
Douras o céu se não houver estrelas.
   Mas cada dia, o dia a dor aumenta
E cada noite, a noite inda a acrescenta.


13- Se, órfão do olhar humano e da fortuna,
Choro na solidão meu pobre estado
E o céu meu pranto inútil importuna,
Eu entro em mim a maldizer meu fado;
Sonho-me alguém mais rico de esperança,
Quero feições e amigos mais amenos,
Deste o pendor, a meta que outro alcança,
Do que mais amo contentado a menos.
Mas, se nesse pensar, que me magoa,
De ti me lembro acaso - o meu destino,
Qual cotovia na alvorada entoa
Da negra terra aos longes céus um hino.
      E na riqueza desse amor que evoco,
      Já minha sorte com a dos rei não
                                                         [troco.


14 -  Quando as sessões do mundo pensamento
Convoco as remembranças do passado,
Sentido a ausência do que amei, lamento
Com velhos ais, de novo, o tempo amado;
E, avesso ao pranto, os olhos meus
[inundo
Por amigos que esconde a noite avara:
Penas de amor que já paguei refundo;
Choro o perder de tanta imagem cara.
E me infligindo uma aflição sofrida,
De pesar em pesar respeso agora
O balanço da dor adormecida
Como se o saldo não soldado fora.
Mas se então penso em ti nesse interim,
Restauro toda a pena e a dor tem fim.


15 - Por que me prometeste um belo dia
Fazendo-me viajar sem agasalho,
se havia nuvens a encobrir a via
E a ocultar teu fulgor o céu grisalho?
Não basta, abrindo as nuvens, te condoas
Para secar de minha face a agrura,
Pois ninguém ao remédio tece loas
Que trata a chaga mas o mal não cura.
Teu remorso não sara o meu tormento,
Pois te arrependes, mas o mal se adensa.
O pesar do culpado é fraco unguento
Áquele que suporta a forte ofensa.
Mas se de amor as lágrimas desatam,
- Pérolas ricas - todo o mal resgatam.


16 - Como o pai que decrépito se alegra
De ver o filho agir em juventude,
Eu, feito inútil pela sorte negra,
Vibro com teu valor, tua virtude.
Pois se a beleza, o berço, a aura, o ouro
Ou algo disso, ou mais, ou tudo junto,
Vejo de dons coroar o teu tesouro,
Engasto o meu amor nesse conjunto.
Já não sou pobre, inútil, desprezado
Estando à tua sombra nutritiva,
Pois em tua abundância o meu legado
Parte é de tua glória que me aviva.
Busca o melhor que não terás revejes;
Que ao desejá-lo sou feliz dez vezes.


17 - Leva-me, amor, todos os meus amores:
Que tens agora a mais que não te
                                                        [déssemos?
Nenhum sincero amor, amor, que opores
Ao quanto irá já teu sem tais acréscimos.
E se é por meu amor que o amor me
                                                        [ raptas,
Não te posso culpar se dele abusas;
Todavia te culpo se te adaptas
Só por capricho ao que em geral recusas.
Gentil ladrão, eu te perdoo a ofensa,
Pois roubaste de ti minha penúria,
Que sempre soube o amor ser dos mais
                                                      [ densa
Sofrer seus erros que do ódio a injúria.
       Lasciva graça, que faz bem do mal;
       Morro de teu desdém, não teu rival.


18 - Que a tenhas não é tudo o meu tormento,
E diga-se que a amei de amor profundo;
Mas ela ter-te é a mágoa que lamento,
Perda de amor que toca no mais fundo.
Mas vos perdoo, amáveis ofensores:
Amaste-a por saberes quando a amo;
E ela me trai, te dando os seus favores,
Em nome deste amor que te proclamo.
Se te perder, o ganho é teu pois ficam 
Um ao lado do outro e perco os dois:
Por minha causa ambos me crucificam.
 Mas por sermos tu e eu um só, me
[inflama
Pensar que a mim somente é que ela
[ama.


19 - Se rude carne fora pensamento, 
A distância infamante não vingara, 
Pois vencendo os espaços, num
                                                [momento,
Na amplidão mais remota te encontrara;
Pouco importava então meu passo fora
Longe de ti nas vastidões da esfera,
Que o pensamento terra e mar devora
Só de pensar onde chegar quisera.
Mortal pensar que não sou pensamento,
Para saltar as léguas de onde andares;
Mas sendo de água e argila me atormento
A queixar-me do tempo e seus vagares;
     Que os tardos elementos me 
                                                [condenam
Às lágrimas, emblemas do que penam.


20 - Como esse rico sou a quem bendita
Chave conduz ao seu tesouro avaro,
Mas onde pouco vai, e assim evita
Cegar o gume de um prazer tão raro.
Pois a festa mais grata e mais solene,
Espaçada no tempo é que pontilha,
Como essa joia de valor perene
Que é a pedra capital da gargantilha.
Assim o tempo oculta meu tesouro
Como a veste no guarda-roupa à espera
De fazer de um instante, instante de ouro
Ao revelar a pompa que encarcera.
  Louve-se quem em tal valor alcança:
Presente, és triunfo; ausente, és
[esperança.


21 - Nem mármore, nem áureos momentos
De reis hão de durar mais que esta rima,
E, sempre hás de brilhar nestes acentos
De que na pedra, pois o tempo a lima.
Pode a estátua na guerra ser tombada
E a cantaria o vil motim destrua;
Nem fofo ou Morte apagará com a espada
Vivo registro da memória tua.
Vencendo a Morte e as legiões do olvido,
E os pósteros, no juízo derradeiro,
Hão de a este louvor prestar ouvido.
    Pois até a sentença que levantes,
    Vives aqui e no lábio dos amantes.


 22 - Quais ondas rumos aos seixos de uma
[praia,
Nossos minutos correm para o fim,
Cada qual sucedendo ao que desmaia,
Lutando por chegar mais longe enfim.
O nascimento, luminoso instante,
Para a maturidade avança herói;
Eclipses frustram sua glória adiante
E o tempo que o gerou ora o destrói.
Trespassa o Tempo o ardor da juventude,
Enruga a face da beleza oprima;
Nutre-se do que é raro e plenitude,
Nada lhe escapa à foice que dizima.
Mas meus versos esperam no papel,
Louvando-te, vencer a mão cruel.


23 - Se ao bronze, à pedra, ao solo, ao mar
                                                             [ingente,
Lhes vem a Morte o seu poder impor,
Como a beleza lhe faria frente
Se não possui mais forçar que uma flor?
Com um hálito de mel pode o verão
Vencer o assédio pertinaz dos dias,
Quando infensas ao Tempo nem serão
As portas de aço e as ínvias penedias?
Atroz meditação! como esconder
Da arca do Tempo a joia preferida?
Que não lhe pode os ágeis pés deter?
Quem não lhe sofre o espólio nesta vida?
     Nada! a não ser que a graça se
                                                        [consinta
De que viva este amor na negra tinta.


24-  Não lamentes por mim quando eu morrer
Senão enquanto o surdo sino diz
Ao mundo vil que o deixo e vou viver
Em meio aos vermes que inda são mais
[vis.
Nem te recordes o verso comovido
A mão que o escreveu, pois te amo tanto
Que antes achar em tua mente olvido
Que ser lembrado e te causar o pranto.
Ah! peço-te que ao leres esta queixa
Quando for minha carne consumida,
Não te refiras ao meu nome e deixa
Que morra o teu amor com minha vida.
Não veja o mundo e zombe desta dor
Por minha causa, quando morto eu for.

25 - Em mim tu podes ver a quadra fria
Em que as folhas, já poucas ou nenhumas, 
Pendem do ramo trêmulo onde havia
Outrora ninhos e gorjeio e plumas.
Em mim contemplas essa luz que apaga
Quando no poente o dia se faz mudo
E pouco a pouco a negra noite o traga,
Gêmea da morte, que cancela tudo.
Em mim tu sentes resplender o fogo
Que ardia sob as cinzas dos passado
E num leito de morte expira logo
Do quanto que o nutriu ora esgotado.
Sabê-lo faz o teu amor mais forte
Por quem em breve há de levar a 
[morte.

26 - Enquanto só, roguei teu patrocínio,
Só meu verso gozou de tua graça,
Mas hoje desgraciado entro em declínio
E a pobre Musa a um outro cede a praça
Confesso, amor, que teu amável tema
Pede uma pena de maior talento,
Mas tudo quanto esse teu poeta extrema
Rouba de ti ao dar-te em pagamento.
Se te empresta virtude é que encontrou-a
Em teu caráter; se te dá beleza,
Ela estava em teu rosto: o que ele entoa
Não é louvor, que o tens por natureza.
Não lhes agradeças por menção tão leve,
Pois pagas a ti mesmo o que ele deve.

27 - Uns se orgulham do berço, ou do talento;
Outros da força física, ou dos bens;
Alguns da feia moda do momento;
Outros dos cães de caça ou palafréns.
Cada gosto um prazer traz na acolhida,
Uma alegria de virtudes plenas, 
Tais minúcias não são minha medida.
Supero a todos com uma só apenas.
Mais do que o berço o teu amor me é caro,
Mais rico que a fortuna, e a moda em uso,
Mais me apraz que os corcéis, ou cães de
[faro,
E tendo-te, do orgulho humano abuso.
O infortúnio seria apenas este:
Tirar de mim o bem que tu me deste.

28 - Ausente andei de ti na primavera,
Quando o festivo Abril mais se atavia,
E em tudo um'alma juvenil pusera
Que até Saturno saltitava e ria.
Mas nem gorjeios d'aves, nem fragrância
De flores várias em matiz odores,
Moveram-me a compor alegre estância
Ou a colher, do seio altivo, as flores.
Nem me tocou a palidez do lírio,
Nem celebrei o vermelhão da rosa;
Eram não mais que imagens de um
[empíreo
Calcado em ti, padrão de toda cousa.
Inverno pareceu-me aquela alfombra,
E me pus a brincar com tua sombra.

29 - Onde estás, Musa, que enceste há
[tanto
De falar do vigor que te bendiz;
Ardor esbanjas em inútil canto
E te apagas, luzindo assuntos vis.
Volta, Musa esquecida, e que redimas
Com versos gráceis o perdido alento.
Cantes a quem se apraz com tuas rimas
E infunde à tua pena arte e talento.
De pé, Musa indolente, e ruga indina
Vê se o Tempo imprimiu à face amada;
Se houver, torna com sátira a rapina
Do tempo em toda parte desprezada.
Dá fama ao meu amor e bem depressa,
Que a ação do Tempo e sua foice
[impeça.

30 - Quando vejo nas crônicas antigas
A descrição dos seres mais perfeitos
E o belo a embelezar velhas cantigas
No blasonar da formosura rara
Que em mãos, pés, lábios, olhos, face
[aflora,
Sinto que a musa antiga decantara
Mesmo a beleza que deténs agora.
Não possa tal louvor de profecia
Do nosso tempo, e já te prefigura;
Mas como só na mente é que te via,
Não pôde o teu valor cantar à altura.
E hoje, que temos olhos para ver,
Verbo nos falta para enaltecer.

31 - Ah! certo é que eu andei ao léu não raro
E fiz de mim truão em recompensas,
Vendi barato o quanto me era caro,
Fiz com nova afeição velhas ofensas.
Verdade é que de viés e um tanto rude
Eu ria o que é fiel; mas, como for,
Deram-me os erros nova juventude
Provou-me o mau amor que eras melhor.
Tudo acabou, aceita o que ora digo:
Meus apetites nunca mais degrado 
A novas provas contra um velho amigo,
Um deus no amor, a quem estou ligado.
Recebe-me, que ao céu terei direito
Estando junto de teu puro peito.

32 - Que eu não veja empecilhos na sincera
União de duas almas. Não amor
É o que encontrando alterações se altera
Ou diminui se o atinge o desamor.
Oh, não! amor é ponto assaz constante
Que ileso os bravos temporais defronta.
É a estrela guia do baixel errante,
De brilho certo, mas valor sem conta.
O Amor não é jogral do Tempo, embora
Em seu declínio os lábios nos entorte.
O Amor não muda com o dia e a hora,
Mas persevera ao limiar da Morte.
E, se se prova que num erro estou,
Num fiz versos nem jamais se amou.

33 - Melhor ser vil do que por vil ser tido,
Quando se acusa a quem não é de o ser;
E um justo prazer morre, envilecido,
Não por nós, mas por quem assim quer
[ver.
Por que um olhar adulterado iria
Louvar-me o sangue de impulso tom,
Ou se sou fraco, algum mais fraco espia,
Vir dar por mau o que eu pretendo bem?
Não, sou o que sou; quem achar iníquos
Os meus abusos, fala pelos seus:
Posso ser reto, já que são oblíquos,
Não vê a mente espúria os feitos meus;
A menso que a sentença seja vera,
De que todos são maus e o mal impera.

34 - O tempo antigo a negra cor não preza
Ou, quando o faz, de bela não a chama;
Mas hoje é sucessora da Beleza
A cor que de bastarda tinha fama.
Da Natureza usando-se o atributo,
Tanto o feio alindou-se com disfarce
Que o Belo já não tem nome, ou reduto,
Mas vive na desgraça, a profanar-se.
Dizem que olhos de luto a minha amada
Sob uns cílios da coar do corvo tem
As damas que de Bem não têm nada
E esta falta compensam com desdém. 
Mas tal ludo só faz por convencer
Que o belo assim é que devia ser.

35- Seus olhos nada têm de um sol que arda
E mais rubro é o coral que sua boca:
Se a neve é branca, sua tez é parda;
São fios negros seu cabelo em touca
Vi rosas mesclas de rubor e alvura,
Mais tais rosas não vejo em sua face.
Sei de perfumes que têm mais doçura 
Que o hálito da amada se evolasse.
Amo ouvi-la falar, porém insisto
Que mais me agrada ouvir uma canção.
De deusas nunca devo o andar ter visto -
Minha amante ao andar pisa no chão.
No entanto, pelos céus, acho-a mais
[rara
Do que a mulher que em falso se 
[compara.