Simplesmente admiro este grande autor, e tenho por ele uma verdadeira estima e apreciação de seus belos textos. Desde já, venho a publicar sonetos e frases deste que é conhecido como o maior dramaturgo de todos os tempos.
Uma coletânea feita pela Lacerda Editores, contendo 42 sonetos, traduzidos de forma mais fiel possível a língua original dos textos.
01 - Dos seres ímpares ansiamos prole
Para que a flor do Belo não se extinga,
E se a rosa madura o Tempo colhe,
Fresco botão sua memória vinga.
Mas tu, que só com os olhos teus
[contrais,
Nutres o ardor com as próprias energias
Causando fome onde a abundância jaz,
Cruel rival, que o próprio ser cruciais.
Tu que do mundo és hoje o galardão,
Arauto da festiva Natureza,
Matas o teu prazer inda o botão
Piedade, senão ides, tu e o fundo
Dão chão, comer o que é devido ao
[mundo.
02 - Quando no assédio de quarentena invernos
Se cavarem as linhas de teu rosto,
Da juventude os teus galões supernos
Podres andrajos se tiverem posto
De teus dias de glória o de beleza,
Dizer que tudo jaz no olhar exausto,
Opróbrio fora, encômio sem grandeza.
Mais mérito terias nessa usança
Se pudesses dizer: "Meu filho há-de
Saldar-me a dívida, exculpar-me a idade",
Provando que a beleza é tua herança.
Fora tornar em novos as coisas velhas
E ver o sangue quente quanto
[engelhas.
03 - Quando a hora dobra em triste e tardo
toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir no carro, a barba hirsuta e branca;
Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça nova.
Contra a foice do Tempo é vão
[combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te
[abate.
04 - Dos astros não retiro entendimento
Embora eu tenha cá de astronomia,
Mas não para prever a sorte, o intento
Nem sei dizer o que será do instante,
Prever a alguém quer chuva, ou vento, ou
[raio;
Se tudo há-de sorrir ao governante
Segundo as predições que aos céus
[extraio.
De teus olhos provêm meus atributos
E, astros constantes, leio ali tal arte:
"Que a verdade e a beleza darão frutos
Se em ti deixas de tanto reservar-te";
Ou um vaticínio sobre ti revelo:
"Teu fim põe termo ao verdadeiro e ao
[belo".
05 - Quando observo que tudo quanto cresce
Desfruta a perfeição de um só momento,
Que neste palco imenso se obedece A secreta influição de firmamento;
Quando percebo que ao homem, como à
[planta,
Esmaga o mesmo céu que lhe deu
[glória,
Que se ergue em seiva e,no ápice,
[aquebranta
E um dia enfim se apaga da memória:
Esse conceito da inconstante sina
Mais jovem faz-te ao melhor agora,
Quando o tempo se alia com a Ruína
Para tornar em noite a tua aurora.
E crua guerra contra o Tempo enfrento,
Pois tudo que te toma eu te acrescente.
06 - Um dia crer nos versos meus quem há -de
Se eu neles derramar teus dons mais
[puros?
No entanto sabe o céu que eles são muros
Que a tua vida ocultam por metade.
Dissera o que de teu olhar emana
Teus dons em nova métrica medira,
Que acharia o porvir então: "Mentira !
Tais tratos não retratam face humana"
Que mofem pois deste papel fanado
Qual de velhos loquazes, e a teu ente
Chamem de pura exaltação da mente
E a meu verso exageros do passado.
Mas se chegar a tua estirpe a tanto,
Em dobro hás - de viver: nela e em meu
[canto.
07 - Devo igualar-te a um dia de verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival um breve instante.
Muitas vezes a luz do céu calcina
Ao léu ou pelas leis da Natureza.
Só teu verão eterno não se acaba
Nem a posse de tua formosura;
De impor -te a sombra a Morte não se gaba
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo
[dura.
Enquanto houver viventes nesta lida,
Há - de viver meu verso e te dar vida.
08 - Tempo voraz, ao leão cegas as garras
E à terra fazes devorar seus genes;
Ao tigre as presas hórridas desgarras
E ardes no próprio sangre a eterna fênix.
Pelo caminho vão teus pés ligeiros
Alegres, tristes estações deixando;
Impões-te ao mundo e aos gozos
[passageiros,
Mas proibi-te um crime mais nefando
De meu amor não vinques o semblante
Nem nele imprimas o teu traço duro.
Oh! permite que intacto siga avante
Como padrão do belo futuro.
Ou antes, velho Tempo, sê perverso:
Pois jovem sempre há-de o manter
[meu verso.
09 - O espelho não me prova que envelheço
Enquanto andares par com a mocidade;
Mas se de rugas vir teu rosto impresso,
Já sei que a Morte a minha vida invade.
Pois toda essa beleza que te veste
Vem de meu coração, que é teu espelho;
O meu vive em teu peito, e o teu me deste:
Por isso como posso ser mais velho?
Portanto, amor, tenhas de ti cuidado
Que eu, não por mim, antes por ti, terei;
Levar teu coração, tão desvelado
Qual ama guarda o doce infante, eu hei.
E nem penses em volta, morte o meu,
Pois para sempre é que meu deste o teu.
10 - Como imperfeito ator que em meio à cena
O seu papel na indecisão recita,
Ou como o ser violento em fúria plena
A que o excesso de forças debilita;
Também eu, sem confiança em mim, me
[esqueço
No amor de os ritos próprios recitar,
E na força com que amo me enfraqueço
Rendido ao peso do poder de amar.
Oh! sejam pois meus livros a eloquência,
Ángures mudos de expressivo peito,
Que amor implorem, pecam recompensa,
Mais do que a voz que muito mais tem
[feito.
Saibas ler o que o mudo amor escreve,
Que o fino amor ouvir com os olhos
[ deve.
11 - Lanço-me ao leito, exausto da fadiga,
Repousa o corpo ao fim da caminhada,
Mais eis que a outra jornada a mente
[obriga
Quando é do corpo a obrigação passada.
A ti meu pensamento - na distância -
Em santa romaria então me leva,
E fico, as frouxas pálpebras em ânsia,
Olhando, como os cegos vêem na treva.
E a vista de minh'alma ali desvenda
Aos olhos sem visão tua figura,
Que igual a jóia erguida em noite
[horrenda,
Renova a velha face à noite escura.
Ai! que de dia o corpo, à noite a alma,
Por tua e minha culpa não têm calma.
12 - Como hei de restaurar-me na bonança
Se órfão da graça do repouso vi-me,
Pois a opressão do dia a noite alcança,
Da noite o dia, e dia e noite oprime;
Que ambos, embora em natureza opostas,
Deram-se as mãos para me dar tortura:
Um dá-me a dura pena, outro desgostos,
Que este penar longe de ti mais dura.
Digo que és luz para agradar ao dia,
E, se há nuvens, que pode removê-las;
Lauvo também a noite a tez sombria:
Douras o céu se não houver estrelas.
Mas cada dia, o dia a dor aumenta
E cada noite, a noite inda a acrescenta.
13- Se, órfão do olhar humano e da fortuna,
Choro na solidão meu pobre estado
E o céu meu pranto inútil importuna,
Eu entro em mim a maldizer meu fado;
Sonho-me alguém mais rico de esperança,
Quero feições e amigos mais amenos,
Deste o pendor, a meta que outro alcança,
Do que mais amo contentado a menos.
Mas, se nesse pensar, que me magoa,
De ti me lembro acaso - o meu destino,
Qual cotovia na alvorada entoa
Da negra terra aos longes céus um hino.
E na riqueza desse amor que evoco,
Já minha sorte com a dos rei não
[troco.
14 - Quando as sessões do mundo pensamento
Convoco as remembranças do passado,
Sentido a ausência do que amei, lamento
Com velhos ais, de novo, o tempo amado;
E, avesso ao pranto, os olhos meus
[inundo
Por amigos que esconde a noite avara:
Penas de amor que já paguei refundo;
Choro o perder de tanta imagem cara.
E me infligindo uma aflição sofrida,
De pesar em pesar respeso agora
O balanço da dor adormecida
Como se o saldo não soldado fora.
Mas se então penso em ti nesse interim,
Restauro toda a pena e a dor tem fim.
15 - Por que me prometeste um belo dia
Fazendo-me viajar sem agasalho,
se havia nuvens a encobrir a via
E a ocultar teu fulgor o céu grisalho?
Não basta, abrindo as nuvens, te condoas
Para secar de minha face a agrura,
Pois ninguém ao remédio tece loas
Que trata a chaga mas o mal não cura.
Teu remorso não sara o meu tormento,
Pois te arrependes, mas o mal se adensa.
O pesar do culpado é fraco unguento
Áquele que suporta a forte ofensa.
Mas se de amor as lágrimas desatam,
- Pérolas ricas - todo o mal resgatam.
16 - Como o pai que decrépito se alegra
De ver o filho agir em juventude,
Eu, feito inútil pela sorte negra,
Vibro com teu valor, tua virtude.
Pois se a beleza, o berço, a aura, o ouro
Ou algo disso, ou mais, ou tudo junto,
Vejo de dons coroar o teu tesouro,
Engasto o meu amor nesse conjunto.
Já não sou pobre, inútil, desprezado
Estando à tua sombra nutritiva,
Pois em tua abundância o meu legado
Parte é de tua glória que me aviva.
Busca o melhor que não terás revejes;
Que ao desejá-lo sou feliz dez vezes.
17 - Leva-me, amor, todos os meus amores:
Que tens agora a mais que não te
[déssemos?
Nenhum sincero amor, amor, que opores
Ao quanto irá já teu sem tais acréscimos.
E se é por meu amor que o amor me
[ raptas,
Não te posso culpar se dele abusas;
Todavia te culpo se te adaptas
Só por capricho ao que em geral recusas.
Gentil ladrão, eu te perdoo a ofensa,
Pois roubaste de ti minha penúria,
Que sempre soube o amor ser dos mais
[ densa
Sofrer seus erros que do ódio a injúria.
Lasciva graça, que faz bem do mal;
Morro de teu desdém, não teu rival.
18 - Que a tenhas não é tudo o meu tormento,
E diga-se que a amei de amor profundo;
Mas ela ter-te é a mágoa que lamento,
Perda de amor que toca no mais fundo.
Mas vos perdoo, amáveis ofensores:
Amaste-a por saberes quando a amo;
E ela me trai, te dando os seus favores,
Em nome deste amor que te proclamo.
Se te perder, o ganho é teu pois ficam
Um ao lado do outro e perco os dois:
Por minha causa ambos me crucificam.
Mas por sermos tu e eu um só, me
[inflama
Pensar que a mim somente é que ela
[ama.
19 - Se rude carne fora pensamento,
A distância infamante não vingara,
Pois vencendo os espaços, num
[momento,
Na amplidão mais remota te encontrara;
Pouco importava então meu passo fora
Longe de ti nas vastidões da esfera,
Que o pensamento terra e mar devora
Só de pensar onde chegar quisera.
Mortal pensar que não sou pensamento,
Para saltar as léguas de onde andares;
Mas sendo de água e argila me atormento
A queixar-me do tempo e seus vagares;
Que os tardos elementos me
[condenam
Às lágrimas, emblemas do que penam.
20 - Como esse rico sou a quem bendita
Chave conduz ao seu tesouro avaro,
Mas onde pouco vai, e assim evita
Cegar o gume de um prazer tão raro.
Pois a festa mais grata e mais solene,
Espaçada no tempo é que pontilha,
Como essa joia de valor perene
Que é a pedra capital da gargantilha.
Assim o tempo oculta meu tesouro
Como a veste no guarda-roupa à espera
De fazer de um instante, instante de ouro
Ao revelar a pompa que encarcera.
Louve-se quem em tal valor alcança:
Presente, és triunfo; ausente, és
[esperança.
21 - Nem mármore, nem áureos momentos
De reis hão de durar mais que esta rima,
E, sempre hás de brilhar nestes acentos
De que na pedra, pois o tempo a lima.
Pode a estátua na guerra ser tombada
E a cantaria o vil motim destrua;
Nem fofo ou Morte apagará com a espada
Vivo registro da memória tua.
Vencendo a Morte e as legiões do olvido,
E os pósteros, no juízo derradeiro,
Hão de a este louvor prestar ouvido.
Pois até a sentença que levantes,
Vives aqui e no lábio dos amantes.
22 - Quais ondas rumos aos seixos de uma
[praia,
Nossos minutos correm para o fim,
Cada qual sucedendo ao que desmaia,
Lutando por chegar mais longe enfim.
O nascimento, luminoso instante,
Para a maturidade avança herói;
Eclipses frustram sua glória adiante
E o tempo que o gerou ora o destrói.
Trespassa o Tempo o ardor da juventude,
Enruga a face da beleza oprima;
Nutre-se do que é raro e plenitude,
Nada lhe escapa à foice que dizima.
Mas meus versos esperam no papel,
Louvando-te, vencer a mão cruel.
23 - Se ao bronze, à pedra, ao solo, ao mar
[ingente,
Lhes vem a Morte o seu poder impor,
Como a beleza lhe faria frente
Se não possui mais forçar que uma flor?
Com um hálito de mel pode o verão
Vencer o assédio pertinaz dos dias,
Quando infensas ao Tempo nem serão
As portas de aço e as ínvias penedias?
Atroz meditação! como esconder
Da arca do Tempo a joia preferida?
Que não lhe pode os ágeis pés deter?
Quem não lhe sofre o espólio nesta vida?
Nada! a não ser que a graça se
[consinta
De que viva este amor na negra tinta.
24- Não lamentes por mim quando eu morrer
Senão enquanto o surdo sino diz
Ao mundo vil que o deixo e vou viver
Em meio aos vermes que inda são mais
[vis.
Nem te recordes o verso comovido
A mão que o escreveu, pois te amo tanto
Que antes achar em tua mente olvido
Que ser lembrado e te causar o pranto.
Ah! peço-te que ao leres esta queixa
Quando for minha carne consumida,
Não te refiras ao meu nome e deixa
Que morra o teu amor com minha vida.
Não veja o mundo e zombe desta dor
Por minha causa, quando morto eu for.
25 - Em mim tu podes ver a quadra fria
Em que as folhas, já poucas ou nenhumas,
Pendem do ramo trêmulo onde havia
Outrora ninhos e gorjeio e plumas.
Em mim contemplas essa luz que apaga
Quando no poente o dia se faz mudo
E pouco a pouco a negra noite o traga,
Gêmea da morte, que cancela tudo.
Em mim tu sentes resplender o fogo
Que ardia sob as cinzas dos passado
E num leito de morte expira logo
Do quanto que o nutriu ora esgotado.
Sabê-lo faz o teu amor mais forte
Por quem em breve há de levar a
[morte.
26 - Enquanto só, roguei teu patrocínio,
Só meu verso gozou de tua graça,
Mas hoje desgraciado entro em declínio
E a pobre Musa a um outro cede a praça
Confesso, amor, que teu amável tema
Pede uma pena de maior talento,
Mas tudo quanto esse teu poeta extrema
Rouba de ti ao dar-te em pagamento.
Se te empresta virtude é que encontrou-a
Em teu caráter; se te dá beleza,
Ela estava em teu rosto: o que ele entoa
Não é louvor, que o tens por natureza.
Não lhes agradeças por menção tão leve,
Pois pagas a ti mesmo o que ele deve.
27 - Uns se orgulham do berço, ou do talento;
Outros da força física, ou dos bens;
Alguns da feia moda do momento;
Outros dos cães de caça ou palafréns.
Cada gosto um prazer traz na acolhida,
Uma alegria de virtudes plenas,
Tais minúcias não são minha medida.
Supero a todos com uma só apenas.
Mais do que o berço o teu amor me é caro,
Mais rico que a fortuna, e a moda em uso,
Mais me apraz que os corcéis, ou cães de
[faro,
E tendo-te, do orgulho humano abuso.
O infortúnio seria apenas este:
Tirar de mim o bem que tu me deste.
28 - Ausente andei de ti na primavera,
Quando o festivo Abril mais se atavia,
E em tudo um'alma juvenil pusera
Que até Saturno saltitava e ria.
Mas nem gorjeios d'aves, nem fragrância
De flores várias em matiz odores,
Moveram-me a compor alegre estância
Ou a colher, do seio altivo, as flores.
Nem me tocou a palidez do lírio,
Nem celebrei o vermelhão da rosa;
Eram não mais que imagens de um
[empíreo
Calcado em ti, padrão de toda cousa.
Inverno pareceu-me aquela alfombra,
E me pus a brincar com tua sombra.
29 - Onde estás, Musa, que enceste há
[tanto
De falar do vigor que te bendiz;
Ardor esbanjas em inútil canto
E te apagas, luzindo assuntos vis.
Volta, Musa esquecida, e que redimas
Com versos gráceis o perdido alento.
Cantes a quem se apraz com tuas rimas
E infunde à tua pena arte e talento.
De pé, Musa indolente, e ruga indina
Vê se o Tempo imprimiu à face amada;
Se houver, torna com sátira a rapina
Do tempo em toda parte desprezada.
Dá fama ao meu amor e bem depressa,
Que a ação do Tempo e sua foice
[impeça.
30 - Quando vejo nas crônicas antigas
A descrição dos seres mais perfeitos
E o belo a embelezar velhas cantigas
No blasonar da formosura rara
Que em mãos, pés, lábios, olhos, face
[aflora,
Sinto que a musa antiga decantara
Mesmo a beleza que deténs agora.
Não possa tal louvor de profecia
Do nosso tempo, e já te prefigura;
Mas como só na mente é que te via,
Não pôde o teu valor cantar à altura.
E hoje, que temos olhos para ver,
Verbo nos falta para enaltecer.
31 - Ah! certo é que eu andei ao léu não raro
E fiz de mim truão em recompensas,
Vendi barato o quanto me era caro,
Fiz com nova afeição velhas ofensas.
Verdade é que de viés e um tanto rude
Eu ria o que é fiel; mas, como for,
Deram-me os erros nova juventude
Provou-me o mau amor que eras melhor.
Tudo acabou, aceita o que ora digo:
Meus apetites nunca mais degrado
A novas provas contra um velho amigo,
Um deus no amor, a quem estou ligado.
Recebe-me, que ao céu terei direito
Estando junto de teu puro peito.
32 - Que eu não veja empecilhos na sincera
União de duas almas. Não amor
É o que encontrando alterações se altera
Ou diminui se o atinge o desamor.
Oh, não! amor é ponto assaz constante
Que ileso os bravos temporais defronta.
É a estrela guia do baixel errante,
De brilho certo, mas valor sem conta.
O Amor não é jogral do Tempo, embora
Em seu declínio os lábios nos entorte.
O Amor não muda com o dia e a hora,
Mas persevera ao limiar da Morte.
E, se se prova que num erro estou,
Num fiz versos nem jamais se amou.
33 - Melhor ser vil do que por vil ser tido,
Quando se acusa a quem não é de o ser;
E um justo prazer morre, envilecido,
Não por nós, mas por quem assim quer
[ver.
Por que um olhar adulterado iria
Louvar-me o sangue de impulso tom,
Ou se sou fraco, algum mais fraco espia,
Vir dar por mau o que eu pretendo bem?
Não, sou o que sou; quem achar iníquos
Os meus abusos, fala pelos seus:
Posso ser reto, já que são oblíquos,
Não vê a mente espúria os feitos meus;
A menso que a sentença seja vera,
De que todos são maus e o mal impera.
34 - O tempo antigo a negra cor não preza
Ou, quando o faz, de bela não a chama;
Mas hoje é sucessora da Beleza
A cor que de bastarda tinha fama.
Da Natureza usando-se o atributo,
Tanto o feio alindou-se com disfarce
Que o Belo já não tem nome, ou reduto,
Mas vive na desgraça, a profanar-se.
Dizem que olhos de luto a minha amada
Sob uns cílios da coar do corvo tem
As damas que de Bem não têm nada
E esta falta compensam com desdém.
Mas tal ludo só faz por convencer
Que o belo assim é que devia ser.
35- Seus olhos nada têm de um sol que arda
E mais rubro é o coral que sua boca:
Se a neve é branca, sua tez é parda;
São fios negros seu cabelo em touca
Vi rosas mesclas de rubor e alvura,
Mais tais rosas não vejo em sua face.
Sei de perfumes que têm mais doçura
Que o hálito da amada se evolasse.
Amo ouvi-la falar, porém insisto
Que mais me agrada ouvir uma canção.
De deusas nunca devo o andar ter visto -
Minha amante ao andar pisa no chão.
No entanto, pelos céus, acho-a mais
[rara
Do que a mulher que em falso se
[compara.